Arrudeia

Vamo simbora que o mundo arrudiou E se eu ficar aí parado é que não vou


umbigo

Nós que se amplia do eu e tu. Nós em crescimento de enlace. A cada suspiro da tua inesperada presença me diluo. À medida que cresces em meu ventre diminui minha perspectiva autoreferente. Sábia natureza e meu umbigo já não é meu. Aha! Mesmo que alguém julgue que só para ele olho, já não é sinônimo que só a mim percebo.

Sinto a calma de não precisar engolir o mundo, de ser especial. Sou uma formiga ordinária entre todos os bilhões da humanidade. Especial não é o indivíduo, que de certo não existe para além da sua psique. Especial é a tarefa, que cumprida com hombridade nos preenche do sentido de sentir - não de entender o incomensurável – o que somos, de onde viemos e o que somos e para onde vamos.

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Percepção é um caminho sem volta

Um dia eles chegam. Roncos, arrotos, peidos, catarros, vômitos, pêlos, secreções, febres e ânsias. Adeus sorrisos amarelos. A escatologia é o bem vindouro sinal do abandono das máscaras. E costumo dizer sempre ao meu eleito que intimidade é um caminho sem volta. Rimos. Parece real e faz sentido. Mas como tudo na vida, sentido não é prova de nada. A intimidade se vai como um cisco caído do olho com o vento. Um alívio súbito ou uma passagem com arranhão, mas como o mesmo cisco, um imprevisto. Surpresa como sua própria existência.

Ninguém planeja ficar íntimo de alguém, ocorre. Simplesmente. Quantas pessoas que nunca imaginávamos entraram para nossa vida sem pedir licença? E quantas outras tantas lhes invadimos o peito sem pretensão? Chover no molhado, é um dos mistérios da vida tão sem explicação – pode ser o cheiro, o tempo, o jeito, o que se precisava ouvir no momento, o álcool, ou karma ou o cosmos – que nem tem graça discernir a respeito.

O mistério decorrente que me intriga ultimamente é por que se desfaz. Por que olhamos praquelas pessoas que, como agulhas no palheiro, conseguiram desvendar nossos véus, e de repente nos parecem estranhos, e lá as atiramos de novo no palheiro da indiferença? Por que em contrapartida houve gente que nos fez sentir importantes e próximos e de uma hora para outra nos esqueceu?

Lembro de todas as pessoas que eu chamei de “minha melhor amiga” desde os 5 anos, ou dos parentes próximos, das paixões infinitas, de um mundo de amor. Quando eu tinha 15 anos não concebia imaginar uma festa para menos de 200 pessoas, meus amigos íntimos, e por falta de verba pra tanto achei um baile um tanto despropositado. Hoje eu convidaria 20, e olhe lá.

Minha vã teoria insone é de que a intimidade se perde quando não se reconhece mais no outro o amor intercâmbio.E para que isso aconteça há uma infinidade de possibilidades, a pessoa pode ser a mesma e agir da mesma forma, mas você já não é igual. A demanda da relação muda, quando estamos bem somos cercados, quando há problemas os ratos fogem. Os valores gritam, a intimidade traz os defeitos que muitas vezes são incompatíveis. As pessoas cansam e querem uma vida nova. É mais fácil trocar de amigo que trabalhar arduamente para que ambos possam mudar sempre e a relação acompanhe as mudanças.

Também é uma das humanidades democráticas essa proximidade perdida. Todo mundo já caiu no esquecimento da mesma maneira que já não se importou com alguém que antes lhe foi caro, e não necessariamente houve um conflito, uma perda, uma decepção para que isso acontecesse. O excluído de hoje é a egípcia de amanhã.

Em contrapartida, há sempre aquelas mágicas descobertas de que tem gente parece que a gente vai ser íntima pra sempre. Não precisa estar perto, nem formalidades, cartões de natal, e tapinhas nas costas, às vezes não precisa nem se dar ao trabalho de avisar que estar vivo. Às pessoas, poucas e grandes, que compartilham comigo dessa espetacular experiência de apenas ser e saber no amor que se reconstrói, eu agradeço simplesmente vossas existências.

E a todas aquelas que por uma rasa escatologia social ou simbólica me deixaram claro que não estarão, peço desculpa pelo equívoco e desejo que sigam em paz em suas máscaras e me dêem o sábio direito da indiferença. Sem dramas, ide em paz com seus sorrisos amarelos.

um dia de faxina

Seu cheiro é meu. Espalha-se pela casa exalando memórias. Contemplo nossa vida como um álbum em movimento onírico. O livro está fechado, não viro páginas, só preciso saber que elas estão lá. Na verdade aqui, dentro de mim. Fêmea sonhadora e seus devaneios. Encontro em teu corpo meu reduto, o lar do espírito, o descanso do ermitão. Não preciso das fotos. O espaço vazio substituo no enlevo pela plenitude. O buraco-quadro negro me liberta para o limbo da história. Os instantes se fazem desnecessários quando tenho a linha do tempo. Cada escolha implica uma abstenção de possibilidades. De você eu quero tudo, até o suor, que agora busco em cada respiro ao travesseiro. Consumamos consumindo-nos.

As ambições que nunca tive, revejo. Se tivesse ao alcance a perfeição que não busquei, agora lhe daria. Mas se serve de consolo, oferto os meus defeitos mais obscuros. Não parece muito, mas é o mais longe e o mais profundo que alguém já chegou nas escavações da terra escura. Seus olhos, meu espelho mágico, fiel e implacável. “Existe alguém mais bela do que eu?”. E no meu conto de fadas as princesas e sua palidez inerte não são páreo para minha altiva e pungente negritude. Não estou ficando velha, estou ficando sua, simplesmente. Eu queria falar fácil. Juro, tento. Se eu disser apenas euteamo você entende? Beijo sua pálpebra. Quero todos os silêncios.

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Tributo a Belchior: Foi por medo de avião...

É como aquele pânico irracional de avião, que a gente reluta, mas sente. A cada estremecida, aperte os cintos e cu. Quem tem, tem medo. Por mais que se realize e se reafirme mentalmente que é o transporte mais seguro do mundo – em mantra ou quase oração -, a paz é incompatível com a mobilidade, com a transição.

Nem é medo de morrer, no fundo - sabemos da mínima possibilidade - é a inexprimível assustadora suspensão de tempo e espaço por algumas horas, uma obrigatoriedade de encarar irremediavelmente a relação com ausência de si mesmo. Incomunicável e sem território, de cinto apertado, de mãos atadas, cuja única sina é esperar, a espera de um chão, ou seja, um sentido.

Dá aquela vontade de espremer esse período dilacerante de qualquer maneira, aí a gente se enche de fone, de som, de livro, de revista, até de cultura inútil, para que o tempo seja amigo e apresse o fim da agonia. Uma mirada ao relógio a cada minuto. Não ajuda. Quero estar lá logo, em seus braços, beijar meu chão como o não tão sagrado papa, e me reencontrar.

Esse tempo de estar entre uma coisa outra, entre essa vida e a próxima, entre o que não é mais e o que está sorrindo para ser, me apavora. Quero finalmente aterrissar no meu espaço, em piso firme, e caminhar com minhas e tuas pernas, no nosso mágico entrelace até saber realmente onde estou.

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É nóis

Assim, como um marceneiro, ele elaborou com esmero num trabalho manual, árduo e ao mesmo tempo artesanal e artístico, o desmantelo dos resquícios da minha vida de antes. Uma cama, um vestido, e os símbolos do passado foram ressignificados Percebi assim que ele viera para agregar, para dar um novo valor e não para negar. Abandonei a fobia de associar entregar-se com perder-se de si mesmo, como uma derrota. A entrega é o passaporte para fazer tudo de um jeito novo, inédito e belo, só deixando para trás o que não serve mais. O caminhão de mudança da vida. Hora de priorizar o que levar nas caixas. É chegado o tempo do nós.

Veias e vias

Vivas ao símbolo da vida.
Fitas, vermelhas, pela fé ressurgida
À vida que não será vida.
Poderá ser comedida,
Em contraponto à desmedida despedida
Daquela que não foi pedida

Carne moída
Estraçalhada, ferida,
Perdida como na partida
Memória inesquecida
Aquecida
No alento, a medida
Da possibilidade de uma nova vida
Sem culpa a ser perseguida ou reerguida
Posto que não há vida

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Llosa: do preconceito ao conceito

Eu tenho meus preconceitos que me confirmam meu caráter falho e portanto me ensinam sobre a minha humanidade. Não me orgulho deles, mas não os odeio. E descaradamente não expio mais a culpa.

Aprendi com um amigo gay que aqueles que fazem parte de uma minoria marginalizada tem por direito a liberdade de devolver à sociedade o preconceito que sofre com a mesma intensidade. Eu, como mulher, preta, pobre, nordestina e nada magra, tenho direito à várias contradições sociais.

Às vezes eu também invento teorias preconceituosas. Depois eu descubro que não é preconceito, é apenas previdência. Sou capaz de sentir que certas coisas não me apetecem mesmo que não tenha como explicar por quê. Às vezes até experimento só para depois provar na roda de discussão que eu tinha razões “científicas” para o desagrado. A exemplo: ficar com meninos mais novos.

Eu não gosto de Llosa. E já tinha antes da primeira página argumentos razoáveis para tanto. Llosa é brigado com Gabriel Garcia Márquez, logo, ele não pode ser uma pessoa do bem. Llosa foi candidato a presidente, o que faz dele uma versão cool peruana de José Sarney. Llosa é jornalista. Llosa é admirado por meus colegas liberais modernamente auto-intitulados de sócio-democratas.

Mas assim como o ator de experimentar os efebos, às vezes uma provocação, uma questão de brios, nos leva ao ato nada heróico, apenas tolo, de fazer o que não queremos para não perder uma boa briga ou uma boa piada de bar. Foi assim com os lolitos, do mesmo modo se deu com Llosa.

Um amigo me deu a deixa: “estou lendo um livro que me lembra você”. Não, não era uma loa, era quase uma ofensa. O que você sentiria se ao perguntar faceira e lisonjeada de que livro se tratava ele retrucasse que era a biografia caça-níquel de Bruna Surfistinha? Ao menos não fui isso que ouvi. Fui intrigantemente comparada à Menina Má, do nada bom garoto Llosa.

Levei meses mas não resisti. Nas primeiras páginas, tive convicção que tinha perdido o amigo, ou que pela menos não podia julgar amizade o sentimento de alguém que viu em mim referências daquele ser humano torpe, dissimulado e vil. E seguia mais as páginas em busca de alguma justificativa ao insulto que devido a um ávido acompanhamento da narrativa.

Mas Llosa me levou mais rapidamente do que eu imaginava à pagina 297. E fechei o livro com a mesma indignação que iniciei. A diferença apenas que encontrei mais de mim na menina má e no menino mau que acredita ser bom, como todos, quando se crê vítima de um algoz que não o corresponde. Ainda não gosto de Llosa. Como do moços incipientes.

Entretanto a experiência me deixou mais fundamentada para entender o que não gosto. Llosa é um manipulador da verdade como os coroinhas de FHC o são, hábeis mas desleais. E amanhã (na metáfora do tempo que seja necessário a esse blog virar o dia, não necessariamente o que diz o calendário) prometo dissertar todas as explicações como prometido, de uma menina má para uma boa menina.

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Não há mal que sempre dure...

Não temo o aquecimento global, nem a poluição. O péssimo planeta que os filhos que não vou ter herdariam já vivo eu, a cada dia, ao abrir olhos e imaginar essa rotina causticante de selva. “Que vença o melhor!”.

Desde que o mundo nem era mundo era assim, evolução. O que é mutável é os valores que caracterizam o alfa, o tipo A. Antes o mais forte, mais ágil, mais bruto. Depois o esperto, astuto e desenvolvido. Até que se evoluiu da esperteza para a falta de escrúpulos, da inteligência e da formação cultural para a malícia, poder de dissimulação e aparência como os critérios cruciais do sucesso.

E quem queria melhorar o mundo? E quem queria ser melhor no que faz, ajudar das pessoas e manter aquele valor retrógrado que já foi usado um dia chamado integridade? O lugar designado a seres que não evoluíram ao que se exige nesse mercado atroz não é ao sol, é underground, é sub, é marginal.

Nesse universo de ponta, a parte que me reservam do latifúndio é ínfimo, invisível. Forminguinha, peoa, escrava, eles deve julgar estar impresso no meu destino como uma marca, como o tom da minha pele, o espaço (que para eles é ridículo) de onde vim.

Mas se este é o preço, aceito que não nasci com poder designado pela divindade – como acreditam que isso é sustentável, tolinhos – eu não me candidato ao trono, nunca o desejei. Na minha nação, zumbi, quem canta de rei tem brios, e na minha terra, em breve, “o sol há de brilhar mais uma vez”.

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I love cafuçu


"Seu guarda eu sou não vagabundo, não sou deliqüente... sou um cara carente! Eu dormi na praça pensando nelaaaaaaaaaaa!"

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Fé Cega, Faca Amolada - Doces Bárbaros

[Milton Nascimento]

Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada
Agora não espero mais aquela madrugada
Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca
amolada
O brilho cego de paixão e fé, faca amolada
Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo
Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo
Brilhar, brilhar, acontecer, brilhar faca amolada
Irmão, irmã, irmã, irmão de fé faca amolada
Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia
Beber o vinho e renascer na luz de todo dia
A fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada
O chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada
Deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia
Deixar o seu amor crescer na luz de cada dia
Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser muito
tranquilo
O brilho cego de paixão e fé, faca amolada
Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada
Agora não espero mais aquela madrugada
Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca
amolada
O brilho cego de paixão e fé, faca amolada.

Casar ou comprar uma bicicleta?

Há uma expressão que metaforiza a vida adulta e os caminhos que temos que escolher quando crescemos. A simples frase resume as opções, presume em verdade uma dicotomia cruel: “Não sei se caso ou compro uma bicicleta”, que trocando em miúdos mais complexos quer sugerir que é chegado um momento da nossa caminhada que ou a gente decide se dedicar ao outro, ou a si mesmo. Lados opostos de uma bifurcação. Direita ou esquerda, para onde você vai?

Existe algo mais individualista que uma bicicleta? Um, único, assento cômodo; nem moto chega a tamanho exclusivismo. E o caráter simbólico da bicicleta? Tão imperativo! O sonho de natal de qualquer criança, o devaneio de dominar o mundo em cima de duas rodas (ainda que no começo sejam necessárias quatro), a projeção da aventura, enfim, o lúdico. Ou seja, é então um “não sei se caso ou dedico-me aos meus sonhos”, como excludentes.

Para contradizer a ordem natural das coisas, a vida não me fez optar, me quis vivendo ambos os caminhos, como em duas vidas paralelas. E o amor que me preenche é tão vasto que sinto como se o mundo todo me fora oferecido, tenho direito outorgado a todas as opções de felicidade, não preciso escolher, por que tudo que está diante de mim é bem-vindo.

E assim experimento nessa gangorra a vida de ser casado e de ter uma bicicleta, de ter alguém e ter o mundo, de se dedicar ao outro, e aos sonhos. E para mim a metáfora da magrela significa que a redescoberta do amor é como andar de bicicleta. Por mais longo que seja o hiato, a gente nunca esquece como é ser feliz, e vai... reaprendendo com tropeços. E num piscar de olhos já estamos nós, sem medo, sem as mãos, completamente lançados às manobras radicais da plenitude, cheios de si e de destreza para lidar com o mundo que essas simples rodas nos pode proporcionar.

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